062) Eu danço
Eu danço para que a minha alma ocupe melhor o meu corpo.
Eu danço porque a dança é uma forma terrestre de voar.
Eu danço em qualquer espaço onde haja seis direções.
Eu danço porque há uma certa beleza em procurar a queda e trocá-la por um rodopio.
Eu danço para que a música faça a mim o que faz o vento à folha.
Eu danço sempre que o chão me ajude a pular.
Eu danço como quem está nadando em rio inclinado.
Eu danço para balançar o esqueleto e fazer a caveira sorrir.
Eu danço sem pensar no dia de amanhã, aliás já passou da meia-noite.
Eu danço porque dançar me torna invisível e imortal.
Eu danço para poder teorizar, com cacife, sobre a Mecânica Celeste.
[
Eu danço porque também o corpo é repentista.
Eu danço porque todo dançarino está vivendo um pequeno triunfo.
Eu danço porque quando dois corpos se juntam nada mais os separa.
Eu danço porque na dança e na vida a gente erra e acerta sem parar.
Eu danço porque já tive que usar muletas, e dançar substitui.
Eu danço porque o mundo é um tambor, mesmo que só eu me escute.
Eu danço porque dançar é uma forma de auto-telequinésia.
Eu danço porque ando cheio de movimentos novos querendo existir.
Eu danço porque a jângal não é lugar para uma estátua.
Eu danço porque quando o corpo cansa o coração repousa.
Eu danço como quem resolveu pegar uma briga com o ar.
Eu danço porque toda dança é trapaça, é tropeço, é travessia.
Eu danço até em passagem de som.
Eu danço porque quem tem meio metro quadrado de salão tem o mundo aos seus pés.
Eu danço porque não creio em nenhuma transcendência do espírito que não inclua a categoria Mamulengo Desengonçado.
Eu danço para que os outros vejam o que eu estou ouvindo.
Eu danço, eu guizo, eu transo, eu briso, eu banzo, eu rezo, eu riso, eu ouço, eu ouso.
Eu danço porque no bolero quem conduz é o conduzido.
Eu danço para redescobrir o alfabeto das reviravoltas, dos negaceios, dos requebros, das saltitâncias, dos insinuamentos.
Eu danço porque não acredito num dançarino que não seja um deus.
Eu danço para saber o que diabos o meu corpo quer comigo.







Toda semana eu danço improvável meu ritual íntimo, meu tosco maracatu: rainha e senhora magnífica do reino de uma mulher só. E, por fidelidade a esse reino sem vassalagem, não divido a honra com ninguém.
Danço como dançavam os antigos, desafiando os inimigos, os desastres, os deuses.
Na sexta ou no sábado reafirmo a alegria, a posse do meu quinhão de vida: que venha, então, a adversidade e me encontre dançando como se tivesse nas mãos a calunga, as insígnias, um escudo, algum poder.
Toda semana lanço minha provocação ao mundo, que nem liga, nem escuta. Não por acreditar em forças que não tenho. Convoco-as.
Desafio esse mundo que ainda é meu, enquanto é meu; que amo, que me ama e que me nega; que um dia me faltará.
Toda noite é a última.
"Eu danço como quem está nadando em rio inclinado." Muito bom!